domingo, 18 de maio de 2008

Libertismo

Eu vivo aqui nessa casa de portas de madeira e paredes brancas,
E sou tanto essas portas de madeira quanto essas paredes brancas,
Embora não me pertençam
Porque vivo muito além disso ou daquilo
Vivo longe
Vivo distante e aquém da margem
Vivo tranquilo
E quando cá não estou é como se isso eu não fosse
Sou outro
Mas ainda mantenho essas portas de madeira e essas paredes brancas
Que são meu íntimo
Esse é o grande prazer da liberdade
Do lirismo desenfreado da distância
Por isso não quero o que me pertença
A não ser aquilo que me integra
A não ser aquilo que é meu sendo o que sou
E que eu aceite sendo o que é
Pois pertencimentos são imateriais
O que é nosso, é nosso, de alguma maneira
Tem autonomia e autoridade sobre si
Mesmo que nunca precise se utilizar dela
Eu quero ser aquilo que houver de ser
Ter apenas aquilo que tiver de ter
Como essas portas de madeira e essas paredes brancas
E como tudo isso que eu ainda não saiba que existe
E que virá com o tempo
Quem sou eu? Que sou eu?
Senão as portas de madeiras e paredes brancas
Senão essa angustia refreada de viver nesse corpo
Senão essa cadência de fatos
Senão essas pessoas
Senão esse pertencer
A esse lugar
Que não me pertence
Lhe deixo enganar, lhe dou corda e vela
E quando não vê já não estou mais aqui
Estou lá
Estou longe
Estou eu.